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NOTICIAS / Rio +20

10.04.2013

Empresas de energia alinham ações com compromissos da Rio+20

Pela primeira vez desde a Rio+20, em 2012, empresas do setor energético da América Latina se encontram para alinhar as ações e discutir como podem contribuir para que os compromissos da Conferência da Terra sejam cumpridos. Principalmente a meta estabelecida pela ONU de universalizar o acesso aos serviços modernos de energia até 2030, com ênfase nas fontes renováveis e não poluentes.

O encontro se deu em Foz do Iguaçu, no IV Seminário Internacional Gestão Socialmente Responsável do Setor Energético na América Latina, promovido pelo Comitê Brasileiro da Comissão de Integração Energética Regional (Bracier) e pela Itaipu Binacional.
    
Com 113 participantes, o evento reúne representantes de grandes empresas do setor, como as brasileiras Eletrobras, Petrobras, Cemig, Copel, Eletronuclear, Eletronorte, além de Yacyretá (Argentina-Paraguai), Salto Grande (Argentina-Uruguai), EPM (Colômbia), entre outras. “Os objetivos deste seminário não se encerram aqui. Queremos continuar debatendo e implementando as ações que aqui estão sendo discutidas”, afirmou o diretor executivo da Cier, Juan Jose Carrasco, durante a abertura realizada nesta segunda-feira (8), no auditório do Refúgio Biológico Bela Vista, da Itaipu.
   
A programação se estende até a quarta-feira (10), quando os participantes terão a oportunidade de conhecer de perto ações de responsabilidade socioambiental desenvolvidas pela Itaipu na área de influência do reservatório. “A interação da sociedade com o nosso produto (energia) faz com que seja fundamental que as empresas do setor desenvolvam ações de responsabilidade social. Esperamos que, a partir do seminário, mais empresas se comprometam com os objetivos estabelecidos pela Rio+20”, acrescentou o secretário executivo do Bracier, Antônio Carlos Menezes.
    
Um dos desafios apontados durante o evento é que os países da América Latina vivem realidades bem distintas em relação ao uso de energias renováveis e à universalização dos serviços. O Brasil, por exemplo, tem uma situação privilegiada, com mais de 80% de fontes renováveis na geração de eletricidade (e pouco menos de 50% se considerado o uso de combustíveis no país). E com ações como o programa Luz para Todos, que levou energia elétrica para 14 milhões de brasileiros nos últimos anos, a taxa de domicílios atendidos pela rede de distribuição de eletricidade é de 99,2%.
   
“A distribuição de eletricidade é o serviço público mais universalizado no Brasil. A maioria das empresas distribuidoras atende a 100% dos domicílios em sua região”, apontou o presidente da Associação Brasileira dos Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), Nelson Leite.
    
Porém, ele ressaltou que o setor precisa reduzir as perdas na distribuição (entre a produção e o consumo o Brasil perde 17% da energia gerada, o equivalente ao consumido pelo Paraná), por conta de problemas técnicos somados a fraudes e furtos, além de melhorar a eficiência energética. “No Brasil, cerca de 60 pessoas morrem por ano tentando fazer 'gatos' na rede elétrica. Esse é também um tema relacionado à sustentabilidade do setor”, acrescentou Leite.
   
Energia como vetor de desenvolvimento

   
O diretor-geral da Itaipu, Jorge Samek, enfatizou a importância da energia como um vetor de desenvolvimento sustentável e que a promoção do acesso à eletricidade é essencial para o cumprimento de outras metas estabelecidas pela ONU, como os Objetivos do Milênio, por exemplo. Ele lembrou também a necessidade de o Brasil dobrar a sua capacidade de geração nos próximos anos e de aproveitar as fontes renováveis para promover essa expansão.
    
“Dentre essas 14 milhões de pessoas atendidas pelo Luz para Todos, muitas iluminaram suas casas e até compraram uma geladeira. Mas, no futuro, vão adquirir outros bens de consumo, como computador, ar condicionado, máquina de lavar roupa. E o Brasil está se preparando para atender a essa demanda com toda sua matriz energética, que é muito rica e variada. A maioria dos países gostaria de ter as condições que o Brasil tem para gerar energia”.
   
O diretor também fez uma defesa da hidreletricidade, a “mais barata e renovável das energias”, e da vocação natural do Brasil por conta dos recursos hídricos que possui. “Acusam a hidreletricidade de insustentável por conta das áreas cobertas pelos reservatórios. No Brasil, se somarmos os reservatórios empregados para a geração de energia, abastecimento e irrigação, o total equivale a 0,4% do território nacional. É muito pouco. E estamos falando da geração de eneria para 200 milhões de pessoas”.

Nova governança
   
A necessidade de expansão do setor elétrico em um mundo que precisa, ao mesmo tempo, reduzir os padrões de produção e consumo e eliminar a pobreza, é um desafio tão grande que exigirá das empresas uma nova forma de governança, de maneira integrada com os demais atores da sociedade. A tese foi defendida pelo presidente do Instituto Ethos, Jorge Abrahão. Na opinião dele, a Rio+20, apesar de não ter produzido um documento conclusivo, com metas objetivas para cada país, estabeleceu as condições para que se possa avançar na promoção do desenvolvimento sustentável.
    
“A energia seguramente será um dos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que funcionarão de forma semelhante aos Objetivos do Milênio e que serão definidos em um painel da ONU, provavelmente em 2015). E o Brasil, pelas suas características, poderá ter um papel fundamental nesse tema da energia, no cenário internacional”, afirmou Abrahão.
   
O diretor de Desenvolvimento Sustentável da Brasken e membro da diretoria brasileira do Pacto Global, Jorge Soto, também chamou a atenção para a importância do setor empresarial na promoção do desenvolvimento sustentável. Além do documento final da Rio+20, (intitulado “O Futuro que Queremos”), ONGs, grupos da sociedade civil, universidades, empresas fecharam 705 compromissos voluntários visando o desenvolvimento sustentável (200 só no setor empresarial).
   
“Na Rio 92, as empresas eram vistas como vilãs. Em 2002, como necessárias. Em 2012, ficou claro que o setor empresarial é imprescindível para a promoção do desenvolvimento sustentável, e as empresas do setor energético têm um papel fundamental nesse processo”, sentenciou Soto destacando que, além dos compromissos da Rio+20, o Brasil é hoje o terceiro país em número de empresas comprometidas com os Objetivos do Milênio (são cerca de 500).
    
Para o representante da Petrobras, Armando Tripodi, a discussão sobre a responsabilidade social e ambiental do setor energético impacta de diferentes maneiras nas estratégias das empresas de energia. Para quem trabalha com fontes renováveis, com energia limpa, a questão é como utilizar essas fontes da maneira mais inteligente, como ter políticas que estimulem o aproveitamento dessas fontes e também promover o benchmarking das melhores práticas, para que outros setores sigam os bons exemplos de responsabilidade socioambiental. Já para as empresas que trabalham com combustíveis fósseis, mais poluentes, se trata de como aproveitar essas matérias-primas com os menores impactos e com medidas de mitigação.
   
“O Brasil tem uma matriz energética invejável. Está caminhando para se tornar o segundo país no mundo em reservas provadas de petróleo. Ao mesmo tempo detém inúmeros recursos naturais. Por isso, é imprescindível que o setor tenha políticas sociais responsáveis, para que suas atividades sejam sustentáveis hoje e sempre”, afirmou.