"O programa ensina a gente a pensar juntos"

  • por: Editor
  • [09.02.2011]
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Depoimentos

“O programa Sustentabilidade das Comunidades Indígenas ensina a pensar juntos, propor juntos. Tenho um exemplo do que entendo como ser sustentável. Aqui na aldeia a gente buscava a espécie de milho amarelo. É o milho que os meus avós herdaram dos antepassados deles. Então, em um dos projetos com a Itaipu, uma das moças trouxe uma espiguinha desse milho. A gente plantou todos os grãos e conseguimos colher 20 quilos do milho na safra do ano passado. Para este ano, nós estamos chamando as famílias aqui na aldeia interessadas em plantar. A nossa expectativa é colher 600 quilos. Esse milho será usado para os nossos rituais. Não é só milho, ele é a semente da nossa cultura”.
      
Cacique Daniel Maracá Merin Lopes, da Aldeia Tekohá Ocoy, em São Miguel do Iguaçu.

“Vim participar mais por necessidade do que interesse. E aí fui pegando gosto pela coisa.”

Depoimentos

Como a maioria dos garotos na faixa dos 18 anos, Heitor se interessava por carros e computador. A área ambiental passava longe quando ele pensava no futuro. No entanto, esse ano ele entrou para a faculdade de Engenharia Ambiental, em Foz do Iguaçu. O que será que mudou sua opinião? Heitor foi um dos 20 adolescentes que participaram do projeto Jovem Jardineiro, uma das ações do Cultivando Água Boa dentro do programa de Sustentabilidade de Segmentos Vulneráveis. O que o levou a participar foi a necessidade. Pouco tempo antes, seu pai tinha saído de casa e com a mãe desempregada, Heitor se viu diante da responsabilidade de assumir algumas contas da família. Quando entrou para o Jovem Jardineiro, ele buscava uma capacitação e uma renda que o ajudasse. Porém, agora que o curso se encerra, ele percebe que ganhou muito mais. Amadureu, aprendeu a ter responsabilidade e a administrar seu tempo e dinheiro, conheceu pessoas, fez amigos e, por fim, aproximou-se de profissionais que despertaram nele a vontade de seguir em frente e atuar na área ambiental. Enquanto cursa a faculdade de Engenharia Ambiental, que já começou neste ano, a capacitação em jardinagem e paisagismo lhe dá uma opção de atuação profissional. Veja o que ele conta dessa história:

“Comecei no Jovem Jardineiro em agosto de 2008. Na verdade, eu já tinha trabalhado em outros locais antes, mas acabei saindo. Aí meu pai saiu de casa e eu fiquei uns 2 meses sem emprego. Fui na Guarda Mirim e lá me falaram desse projeto de jardinagem aqui na Itaipu. Mais por necessidade do que interesse, eu acabei vindo. No início eu não gostava, não me via fazendo isso. Mas aí eu acabei pegando gosto pela coisa. Tive contato com diversas pessoas da área ambiental e comecei a me interessar pelo assunto. Tanto é que acabei optando por fazer faculdade de Engenharia Ambiental. 

O local aqui é legal para se trabalhar e o pessoal é muito bacana, todos me ajudaram muito. Aprendi muitas coisas com o Renê (Renê Diomar Fernandes, coordenador do projeto Jovem Jardineiro) e com outras pessoas que fui conhecendo. Fiz muitos amigos, adolescentes e pessoas mais experientes e maduras também. Além de muitos contatos profissionais, se eu for seguir nessa área ambiental mesmo.

O mais importante é que comecei a ver as coisas de forma diferente. A gente não fala só sobre jardinagem. Conversamos muito sobre o futuro também.  Aprendi a respeitar hierarquias, a seguir ordens, a me socializar melhor com as pessoas. Toda ação tem uma reação. Dependendo do que a gente faz, pode ser positiva ou negativa. Aprendi também a administrar melhor o meu dinheiro, a ter mais responsabilidade. Como minha mãe é desempregada, eu pago a maioria das contas lá em casa. 

Acabei aprendendo ainda a cumprir horários e a organizar meu tempo. Porque agora faço faculdade de manhã, então tenho que levanter bem cedo. Eu moro mais ou menos a uns 20 km daqui, aí eu corro pra casa, almoçar, e depois venho trabalhar. Então, tudo isso me ajudou a amadurecer. 

Agora quero fazer minha parte para ajudar o mundo. Se eu puder, gostaria de participar de um projeto ambiental para diminuir a poluição, plantar árvores ou outra coisa que ajude a estabilizar o clima, a situação do planeta no momento.”

HEITOR MANOEL RIES WINCKLER é um dos formandos da turma de 2008-2009 do programa Jovem Jardineiro, umas das ações de Sustentabilidade de Segmentos Vulneráveis.

 

“Eu ficava imaginando: e se os agricultores cultivassem plantas medicinais?”

Depoimentos

Quando visitava as famílias que moravam no entorno do lago da Itaipu, em São Miguel do Iguaçu, para conversar sobre reflorestamento, Altevir ficava imaginando se aquelas propriedades não poderiam cultivar plantas medicinais. Esse era um hobbie que ele tinha, junto com a colega Teresa, que trabalhava no Refúgio Biológico Bela Vista. Sempre que podiam, eles pesquisavam sobre o cultivo e o uso dessas plantas. Lá no Refúgio, em um pequeno espaço, eles cultivavam 15 espécies de plantas medicinais. A pequena produção era consumida por eles mesmos e alguns colegas que vinham procurá-los. Com o lançamento do programa Cultivando Água Boa, em 2003, o que era um sonho passou a concretizar-se em um projeto socioambiental. Veja o que o Altevir conta: 

“Em 2003, o Dr. Nelton (Nelton Miguel Friedrich, diretor de coordenação e meio ambiente da Itaipu Binacional) chegou com uma farmacêutica chamada Loici, que também gostava e se interessava por plantas medicinais. Sentamos para escrever um projetinho, que foi encaminhado e aprovado. E assim começamos a trabalhar com a comunidade. 

A primeira coisa que constatamos é que as pessoas usavam plantas medicinais errado. Fizemos um diagnóstico, onde foram entrevistadas 2.500 pessoas e descobrimos 82% da população usava plantas medicinais. Porém, 10% delas achavam que o uso das plantas não poderia fazer mal e 8% achavam que não tinha contraindicação, que era só usar. O principal exemplo é o chimarrão: dentro daquele preparado, nós encontramos a erva mate, que é uma planta excitante, porém junto tinham várias plantas que eram calmantes. Isso não pode acontecer.

Montamos então uma estratégia de educação: capacitamos pessoas, trouxemos palestrantes, fizemos cursos, inclusive para merendeiras, agentes de saúde e pastorais. E já podemos ver o resultado dessa conscientização. Hoje em qualquer lugar que você vai por aqui, as pessoas falam do uso das plantas medicinais, que são naturais, mas que têm contraindicação. E a indicação por parte dos profissionais de saúde também está mudando muito rápido, porque agora o próprio paciente que vai ao postinho de saúde pergunta se tem algum tratamento alternativo pra ele. 

Agora estamos trabalhando para capacitar os agricultores. Estamos já com quatro secadoras e cinco estufas de germinação compradas para instalar em vários pontos da Bacia do Paraná III. Em Vera Cruz do Oeste já temos uma produtora que se dedica integralmente ao cultivo das plantas medicinais. Nossa principal meta é fechar essa cadeia produtiva nos municípios. Ou seja: o agricultor produzindo plantas de boa qualidade e entregando na prefeitura. E a prefeitura disponibilizando as plantas nos postos de saúde. É isso que a gente quer ver.”

ALTEVIR ZARDINELLO é coordenador na Itaipu do programa de Plantas Medicinais, umas das ações do Desenvolvimento Rural Sustentável.