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ARTIGOS

22.03.2011 - AUTOR: Nelton Friedrich

Água: questão de diálogo e parceria

Neste 22 de março, Dia Mundial da Água, voltamos a nos debruçar sobre um tema essencial à sobrevivência do ser humano: a água. Infelizmente, não há muito o que se comemorar, quando se trata da crise da água em seu contexto global.

Continuamos com mais de um quinto da população mundial sem acesso a água potável em quantidade que atenda ao patamar mínimo das necessidades humanas; a quantidade de água engarrafada no mundo é cada vez maior e há locais em que ela já custa mais do que combustível; crescem os investimentos em técnicas caras para se obter esse recurso; e mesmo em um país como o Brasil, que detém mais de 12% da água doce do planeta, 70% dos rios entre o Rio Grande do Sul e a Bahia estão contaminados.

Uma cultura do desperdício e da falsa ideia de abundância tem impedido uma mudança de atitude das pessoas em relação à água. Desaprendemos algo que os povos originários de nosso continente bem sabiam: a água, por ser essencial à vida, deve ser tratada não só com respeito, mas com reverência. Como algo sagrado. Afinal, não há vida sem água.

Na região da Bacia Hidrográfica do Rio Paraná 3, área banhada pelas microbacias hidrográficas da região Oeste do Paraná, a Itaipu Binacional e parceiros do programa Cultivando Água Boa vem demonstrando a viabilidade de algo que está evidente no próprio nome da iniciativa: a água pode e deve ser cultivada.

Da mesma maneira que a civilização humana evoluiu a ponto de cultivar seus alimentos, é necessário cultivar também a água, igualmente essencial para a manutenção da vida. E não é difícil fazer isso. São cuidados simples, como a manutenção da mata em torno das nascentes e dos cursos dos rios; a adoção das melhores práticas agrícolas, como o terraceamento, o tratamento dos dejetos, o plantio direto de qualidade, a redução da dependência de insumos químicos; o correto tratamento dos esgotos e águas servidas; a destinação adequada do lixo; o reuso da água da chuva.

A região, por exemplo, tem uma precipitação de mais de 1.700 mm/ano e 60% da água que pagamos não é de uso nobre, ou seja, pode ser de reuso. Só 40% da água que consumimos tem que ser potável (para beber, para o alimento, para a higiene  pessoal).

Mas, para que essas mudanças ocorram, é necessário compartilhar responsabilidades. As soluções não podem depender apenas do poder público ou só da sociedade. Impor receitas ou modelos prontos é algo que não funciona. É somente com o diálogo e a parceria entre sociedade civil, iniciativa privada e governos que se pode resolver a questão da água, assim como tantas outras questões socioambientais. Necessitamos resgatar a cultura da água – o que você faz com, na e para a água!

Aqui na Bacia do Paraná 3, estamos concluindo uma bem-sucedida experiência de formação de cerca de 610 gestores de bacias hidrográficas. São técnicos, líderes comunitários e professores que, ao longo de mais de um ano, trocaram experiências, apresentaram seus pontos de vista e, em conjunto, elaboraram 31 planos de ação para diferentes microbacias da região. E alcançamos 630 Agentes das Águas, voluntários nas microbacias que, depois de um curso de 44 horas, fazem o monitoramento participativo da água.

Esses planos constituem verdadeiros modelos de desenvolvimento para essas comunidades com especial atenção para a conservação do meio ambiente e que irão se desdobrar em inúmeras ações ao longo dos próximos meses e anos. São soluções de âmbito local, que têm uma interconexão com a problemática global do meio ambiente. Sem dúvida, não serão suficientes para configurar uma nova situação da água no contexto mundial, mas sinalizam que, para que haja água com qualidade e quantidade suficiente para a humanidade, é preciso dar vez e voz a todos, somar esforços e dividir responsabilidades. Na natureza não existe castigo, existe consequencia: cuide bem e ela responde bem para você.