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ARTIGOS

05.05.2011 - AUTOR: Nelton Friedrich*

A esperança da Rio +20

A Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 15), em Copenhagen, em 2009, fracassou. Diante da mais grave crise socioambiental da história da humanidade, ficou evidente que o senso de urgência não acompanhou o coração, a mente e nem a bagagem dos principais líderes dos centros de poder do mundo que lá compareceram.

Apesar do fracasso geral, tivemos posições e demonstrações exemplares como as do Brasil, que não compareceu de mãos vazias. O então Presidente Lula colocou nosso país como o primeiro a estabelecer metas concretas de redução das emissões de gases do efeito estufa.

Depois, a COP 16, em Cancun, com representações de 194 países, se realizou num clima de poucas expectativas, à luz do que tinha acontecido em Copenhague na COP 15, e mais ainda em função do agravamento da crise financeira mundial. Mesmo assim, a COP 16 teve alguns pontos positivos que não colocaram tudo a perder e merecem reflexão.
 
Um ponto muito importante foi o convencimento das nações de que é necessário um esforço planetário para impedir que o aquecimento global ultrapasse 2º Celsius, pois até esse limite haveria possibilidade de adaptação. Outro ponto positivo é o que estabelece a operação de um Fundo Verde que até 2020 deverá liberar US$ 100 bilhões por ano, administrado pelas Nações Unidas com a participação do Banco Mundial como tesoureiro.

A conferência também chegou a um acordo de adiamento da vigência do Protocolo de Kyoto e que eleva a "ambição" da redução de emissões de gases poluentes. Foi aprovado também, embora ainda sejam necessários ajustes para garantir o início de funcionamento, o mecanismo de conservação das florestas chamado REDD (sigla para redução de emissões por desmatamento e degradação).

Enfatize-se o papel do Brasil, destacado protagonista na COP 15 por ser o país que levou metas bem claras, concretas e factíveis e quando veio a COP 16, chegou em Cancún com a meta de desmatamento da Amazônia prometida para 2016 cumprida já em 2010.

Vale lembrar o destaque do Brasil na 10ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica, realizada em outubro de 2010 em Nagoya, Japão. Lá, definiu-se que os países devem compartilhar o acesso aos benefícios dos recursos genéticos, como plantas cujos extratos foram utilizados para desenvolver medicamentos e cosméticos. Foram ajustadas, ainda, maneiras de compensação para os países que preservaram esses materiais genéticos ao longo de décadas. Outro marco alcançado em Nagoya é que pelos menos 17% da superfície terrestre dos continentes e 10% dos ecossistemas marinhos configurem áreas protegidas.

Enfim, o que ecoou da Convenção da Biodiversidade e da COP 16 é que, mesmo timidamente, estamos avançando, e aí é preciso valorizar, reconhecer a presença maiúscula brasileira, que tem participado desses eventos de maneira muito afirmativa, com personalidade e com propósitos que chegam a surpreender. Tanto é verdade que em Copenhague, em Nagoya e Cancún, a presença brasileira brilhou como nunca.  
 
Agora, as esperanças se voltam para a Rio +20, no Brasil. Nas palavras de Achim Steiner, subsecretário-geral da ONU e diretor-executivo do Pnuma, a “Rio +20 poderá marcar um ponto de virada nos assuntos globais, um momento em que a estabilidade ambiental seja transformada em realidade”.

A Conferência terá a economia verde, o combate à pobreza e a criação de uma governança global que alie economia, desenvolvimento humano e meio ambiente como seus temas centrais. Mas é na economia verde onde estão as esperanças maiores de um avanço significativo. 

A transição para uma economia verde, de baixo carbono e uso eficiente dos recursos naturais, virou uma prioridade central dos esforços internacionais em busca do desenvolvimento sustentável, em um século 21 em processo de transformação acelerada.

E nós, envolvidos no programa Cultivando Água Boa (que cada vez mais se transforma num movimento pela sustentabilidade), a Plataforma Itaipu de Energias Renováveis e em outras iniciativas neste “pedaço” em que vivemos no planeta Terra e sintonizados com as esperanças realimentadas pela Rio +20, estamos inserindo em nossas agendas o sentido e os conteúdos da conferência mundial e começando com uma série de ações preparatórias na Bacia do Paraná 3.

Significa que na aldeia que nos envolve, a Bacia Hidrográfica do Paraná 3 (BP3), a Rio +20 configura oportunidade de constatar o quanto temos de ações na linha dos dois temas centrais (erradicação da pobreza e economia verde) e de protagonismo de mudanças e transformações nos comportamentos e atitudes, envolvendo milhares de pessoas e materializando o sentimento de que  “somos a mudança que queremos no planeta”.

É o caso, por exemplo, do trabalho com os catadores de materiais recicláveis, do programa Coleta Solidária; do que o Vida Orgânica faz no campo da agroecologia; e também do projeto Plantas Medicinais. Ressalte-se, ainda, a dedicação da Itaipu ao desenvolvimento da economia verde, particularmente com as tecnologias trabalhadas pela Plataforma Itaipu de Energias Renováveis, que faz de dejetos e de lixo, que são grandes geradores de metano, causador do efeito estufa, uma fonte de energia, saindo de um grave passivo ambiental para uma solução inclusive com valor econômico.

Temos aqui, portanto, um laboratório a céu aberto em que existem sinais muito evidentes e positivos de uma economia verde e, ao mesmo tempo, de cuidado e atenção com o segmento social e economicamente fragilizado.
    
* Nelton Miguel Friedrich é diretor de Coordenação e Meio Ambiente da Itaipu Binacional - nelton@itaipu.gov.br